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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mini-contos

Uma atividade realizada no Museu da Língua Portuguesa lançou para os seus visitantes uma interessante relação com os encantadores e reflexivos Minicontos. Confesso que fui atingido por uma das diversas sementinhas que foram semeadas pela Educadora Rita em todos que se relacionaram com os minicontos, então, eu resolvi me arriscar em tentar criar alguns, a partir do meu Ponto de Vista sobre a nossa realidade, divertida e complexa.

Tempo

Todo Tempo Tem Tempo
Todo Tempo Tem Templo (Relógio)
Todo Templo Tem Trabalho
Todo Trabalho Tem Tédio
Todo Tédio Tem Tempo
TicTac, TicTac, TicTac
TicTac Também Trabalha
Temporariamente, traduzindo o Tempo.


A Contemplação Linguística

Moço: __ Ual, mas que belo broto, realmente é um broto muito atraente.
Moça: __ Nossa, mas que belo rapaz e gentil, muito agradecida.
Moço: __ Hum?! Mas eu não me refiro à vossa mercê, estou apenas elogiando aquele lindo e atraente botão de rosa vermelha, plantada ali, naquele singelo jardim.
A Donzela, acompanhada de sua dama de companhia ecoa um profundo silêncio de espanto e constrangimento.

André Bispo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

“Vodu é pra Jacu”

 
Fonte do Vídeo: Canal AndréBispoVivo

Esse episódio da série Pica-Pau um tanto divertido e ao mesmo tempo curioso apresenta ao espectador um forte estereótipo sobre o Vodu, uma prática religiosa de origem africana (Haiti, Benin) que se desenvolveu por meios de outras influências culturais não só no continente africano, mas também aqui no Brasil por meio de elementos indígenas. Por causa de suas manifestações misticamente exóticas o Vodu recebeu (e recebe até os dias de hoje) muitos ataques etnocêntricos de pessoas que acreditam que a religião de raiz africana possui uma forte ligação com o cara lá de baixo possuidor de múltiplos nomes populares, entre outros, como Cão, Capeta, “Coisa-ruim”, Diabo, Demônio e Satã.
A primeira cena da animação começa com imagens de seres e objetos bem assustadores, tais como morcegos, um abutre possuidor de um olhar hipnotizante e sombrio e crânios espalhados pelo chão; o personagem Jacaré é o “feiticeiro” (que utiliza uma roupa que chama uma atenção bem familiar, ele veste um chapéu em estilo gorro de ponta vertical com uma estrela estampada na ponta e uma curta bata combinando com a cor do chapéu, essa veste lembra muito as roupas do feiticeiro Mago Merlin) que ordena uma espécie de ritual dentro de uma caverna, que só pelo fato de ser uma caverna já transmite uma sensação primitivo, isto é, não civilizado, inculto. A cerimônia é conduzida com a ajuda de um tambor que ecoa um ritmo bem africano unido com a evocação de algumas palavras bem curiosas, e para completar o ambiente místico da toca de pedra primitiva, as velas vermelhas e crânios espalhados e no centro um enorme caldeirão preto com uma substância nervosamente efervescente simbolizando uma espécie de poção miraculosa lança a impressão de que ali acontece algo mágico e exótico, com certeza não deixa duvidada de que ali acontece um ritual cujas intenções são ambíguas.
 Pensar em velas vermelhas, pretas, enfim coloridas nos dias atuais “rende muito pano pra manga”, por serem elementos julgados como ferramenta de macumba ou magia negra, é possível encontrar a prova desse julgamento nas ruas, se um transeunte avista uma vela vermelha acesa em um cantinho de uma calçada ou esquina, esse sujeito prefere atravessar a congestionada rua para chegar à outra calçada e continuar o seu destino só para não passar perto da “macumba”, acreditando que se passar por perto ou até fazer um forte contato visual ele corre o risco de contrair algum mal creditado ali, naquele pequeno e inofensivo território urbano com pequenas velas coloridas e acesas, por esse motivo o desenho se apropria do estereótipo presente nas velas e apresenta durante o seu enredo animado para reforçar o tal ritual voduista.
A única personagem feminina da animação é a encantadora Gina, a Locutora ecoa através de um perigoso microfone para os seus ouvintes uma sucinta introdução sobre o voduismo e o mais curioso é ao afirmar que o Vodu é um ritual praticado por sociedades primitivas, ou seja, não civilizadas, seres primatas; outra cena que chama muito a atenção é a criação de um boneco de Vodu feito pelo feiticeiro Jacaré, isto é, o reforço de que esse “boneco de vodu” (como é popularmente conhecido) existe para prejudicar, machucar através de leves e profundas alfinetadas e até manipular os movimentos físicos de outras pessoas à distância, sendo que na realidade cultural a estatueta para cultos do voduísmo possui a função de curar a distância uma pessoa que possui algum male, a estatueta usada como fetiche absorve a enfermidade de tal modo que a pessoa fica totalmente curada e livre do male espiritual ou físico (Benin).
Agora é interessante oferecer atenção ao sincretismo religioso presente em algumas religiões daqui do Brasil, no Catolicismo, por exemplo, encontramos uma prática realizada por alguns fiéis muito parecida com o fetiche do voduismo que também conta com a utilização de uma estatueta usada em cultos religioso como já mencionado, essa similaridade se apresenta com a imagem de Santo Antônio (Santo Português, no sincretismo religioso é conhecido no candomblé como o Orixá da guerra, Ogum) usado em pequenos “rituais” realizados por moças desesperadamente solteiras (ainda não existe dados se homens também realizam esse tipo de rito com o Santo), segundo as (os) simpatizantes, Santo Antônio possui o domínio de trazer para a moça solteiramente angustiada por não conseguir encontrar o companheiro de sua vida para casar, um futuro esposo, mas é necessário que o devoto cumpra com algumas práticas religiosas para ter o seu desejo atendido, é necessário que a solteira simpatizante cumpra com alguns encantos usando a estatueta de Santo Antônio, ela deve virar a imagem do santo português de cabeça para baixo, dentro de um copo d’água, dizendo que o colocará de pé quando tiver encontrado o seu futuro marido, assim que o pedido é atendido, a contente e satisfeita devota autora do pedido, finaliza o pequeno ritual com uma pequena oferenda para estatueta de Santo Antônio, depositando a sua volta um singelo ramo de flores acompanhado com uma vela acesa, ou seja, um pequeno “ebó” (termo do yorùbá, significa oferenda) como forma de agradecimento pela tão desejada graça alcançada. O fetiche presente entre a imagem de Santo Antônio e a Estatueta Voduista é similar, em suma o Vodu que parece ser tão distante e primitiva possui elementos de culto muito parecido com práticas existente na principal religião do Brasil desde o século XVI.
Tratar de religião é como tratar sobre a origem de tudo e de todos, mas voltando ao desenho, só para concluir esse sucinto ponto de vista, a forma em que o curta se conclui é fabulosa, porque a locutora anuncia a proibição da prática do voduismo sendo vencida pelo encanto do culto apresentado pelo desenho, o famoso personagem Pica-Pau que se demonstrou descrente sobre as práticas do vodu desde o início da animação, no final é transfigurado após ter tido contato com a estanha poção miraculosa criada pelo feiticeiro Jacaré, que também foi vencido e reduzido pelo seu próprio feitiço. A TV apresenta pequenos conteúdos repletos de estereótipos, e muitos passam repetidamente despercebidos, contribuindo para o desconhecimento e contribuindo para o engrossamento do preconceito e da visão etnocêntrica. Então, só para lançar o bom humor que é o ensejo da animação, pondere... “Vodu é pra Jacu”.

Obs.: O Termo Jacu é uma palavra que denomina uma espécie de uma Ave e na linguagem popular designa a pessoa caipira, aquele que culturalmente não é "civilizado" culturalmente dentro da realidade urbana.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Morte Subjetiva

"Dizem que você morre três vezes.
Primeiro quando seu coração para.
Segundo quando você é enterrado ou cremado e,
terceiro, quando alguém diz seu nome pela última vez."
                                                                       Laurie Anderson1.

É conveniente percebermos o quanto a consciência de Morte é finada na  maioria das vidas dos homens contemporâneos, pouco se fala sobre esse fenômeno tão natural na existência de um ser, parece até um tabu, mas não é. Eu cresci convivendo (através de filmes e livros) com os contos de fadas, o mais incrível desses contos é que a história se concluía com um narrador possuidor de uma grave voz masculina (isso nos filmes) jurando “e eles viveram felizes para sempre”, essa frase sempre me causou certo estranhamento, mas ao mesmo tempo um conforto. Um dia eu cresci, e percebi que essa premissa perante a lógica racional estava totalmente invalida, (Todo Homem é Mortal. Nós Somos Homens. Logo, Nós Somos Mortais.) percebi que fui enganado a minha infância inteira, percebi que todo conto, todo livro tem um fim, também percebi que o longa-metragem infantil sempre terminava assegurando algo eterno. Pois é, através dessas observações é sensato afirmar que não é da natureza do Homem viver feliz para sempre, porque a eternidade não existe, o homem não é eterno, ele nasce, cresce, frustra-se, se angústia e morre, e o curioso é que ao morrer o falecido lança para os seus entes que ainda permanecem vivos os sentimentos de angústia, tristeza, choro, entre outras emoções por não aceitarem a morte do outro.
É muito atraente pensar que a Morte é um fenômeno natural, mas a nossa atual sociedade que se julga tão contemporânea parece não encará-la como um acontecimento tão natural assim, o curioso é, quando se toca nesse assunto é normal brotar um misterioso arrepio que vem lá do fundo de nossa alma e traspassa para a nossa pele causando pequenos frêmitos, quando temos que ir a um velório ou enterro então, nem se fale (principalmente quando assistimos os sofrimentos angustiantes dos entes queridos do morto). É difícil reconhecer, mas nós estamos morrendo aos poucos, nas já nascemos com a morte e raras pessoas possuem essa consciência, se cada um tivesse a impressão de que está morrendo aos poucos e que a idade na verdade não são contados em ordem crescente e sim em decrescente para esse fenômeno tão natural, as pessoas talvez vivessem as suas vidas com mais prazer e exatidão.
 É através dessas observações que é fascinante, resgatar para essa reflexão na famosa frase do francês René Descartes, “Penso, Logo Existo” é interessante compreendermos essa afirmação no processo social de morte, segundo Descartes o homem só existe enquanto pensa, se o mesmo não pensa, ele não existe, ou seja, é um sujeito morto, pensando a partir dessa perspectiva, quando uma pessoa morre, ela não tem a consciência de que morreu, porque não pensa mais, o fato é quem possui a consciência de morte é quem ainda está vivo, este ser que ainda continua pensando passa a ser o responsável pela morte do outro, porque ele terá que matar a existência daquele que se foi da sua subjetividade, é por isso que as pessoas sofrem tanto, enquanto o ente querido, que faleceu se encontra levemente deitado em seu sono profundo, com um suave sorriso exposto em seu rosto, o vivo que está velando pelo seu corpo sofre, grita chora e até atinge o desmaio, isso acontece porque somos nós que ainda estamos vivos que matamos o outro, temos que matar a ideia de que o outro está vivo da nossa consciência e passar a conviver com a ideia de que ele está morto, é denso, triste, mas é um acontecimento natural, somos todos assassinos, nós é quem matamos o outro, quando a artista Laurie Anderson afirma que nós morremos três vezes e que na terceira e última morte é completada quando alguém diz o nosso nome pela última vez, ela está assegurando este ponto de vista, ou seja, é o outro quem nos mata quando não estamos mais presente em sua oração e principalmente em sua consciência. Entrei neste argumento porque na vida, temos grandes e permanentes oscilações, momentos felizes, tristes, e um dia tudo isso termina, porque não somos seres eternos, não somos indestrutíveis, estamos morrendo aos poucos, sumindo regressivamente acompanhado com a Sra. Morte. É ai que eu me questiono, como um ser desse pode ser feliz para sempre?!

A Morte. Desenho do Alemão Thornsten Kohnhorst, é como uma sombra que sempre acompanha o homem.

1Enunciado exposto na exposição “I in U / Eu em Tu” de Laurie Anderson. Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo. Data 12 de outubro a 26 de dezembro de 2011.

Referências:

Filme - MAR ADENTRO de Alejandro Amenábar.
Livro - Dias Contados - Contos Sobre o Fim do Mundo (Vários Autores).
Livro - FEITOSA, Charles. Explicando a Filosofia com Arte. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004 il.